sexta-feira, 30 de março de 2012

Complexo logístico vai trazer R$ 3 bi à economia de Ilhéus



Paisagem de Ilhéus: cidade terá o maior impacto do projeto que integra ferrovia, aeroporto, ZPE e gasoduto.
O complexo log√≠stico produtivo do sul da Bahia √© uma das obras estruturantes mais importantes do plano do governo estadual. Sua concep√ß√£o envolve a constru√ß√£o da Ferrovia da Integra√ß√£o Oeste-Leste, que receber√° investimentos de R$ 4,5 bilh√Ķes s√≥ no trecho baiano - saindo de Lu√≠s Eduardo Magalh√£es (no oeste) e chegando a Ilh√©us -, e a instala√ß√£o de um porto offshore, a tr√™s quil√īmetros da costa.
O empreendimento ambiciona a abertura de um novo eixo de desenvolvimento, integrando o sul da Bahia à economia nacional. O maior impacto será absorvido por Ilhéus, que abrigará o Porto Sul, complexo que integra a ferrovia, um novo aeroporto internacional, uma área industrial, uma zona de processamento de exportação (ZPE) e dará passagem ao gasoduto Sudeste-Nordeste (Gasene).
Essas obras irrigar√£o o munic√≠pio com R$ 3 bilh√Ķes nos pr√≥ximos anos. H√° tempos a regi√£o sul da Bahia n√£o recebe aportes de tal magnitude. As instala√ß√Ķes do porto e da √°rea log√≠stica agregada ocupar√£o uma √°rea de 1.771 hectares na localidade da Ponta da Tulha, no norte de Ilh√©us. "Existe um decreto delimitando as √°reas para a constru√ß√£o do complexo. Ainda aguardamos a an√°lise ambiental e √© preciso definir o plano diretor da cidade", afirma Jos√© Nazal Soub, secret√°rio de governo da Prefeitura de Ilh√©us.
Na cidade, a grande expectativa est√° na gera√ß√£o de empregos, principal preocupa√ß√£o dos mun√≠cipes. Em todas as pesquisas que realizou nos √ļltimos anos, a prefeitura detectou que a falta de trabalho √© a primeira queixa dos ilheuenses, que convivem com uma taxa de desemprego de 24,8%. "Com 31% das respostas, a aus√™ncia de trabalho supera itens como seguran√ßa, educa√ß√£o e sa√ļde", explica Soub.
De acordo com o secret√°rio, 20% dos habitantes conhecem bem o projeto. Desse grupo, 80% acreditam que o Porto Sul trar√° desenvolvimento econ√īmico para a regi√£o. "Como estamos tratando de uma √°rea de reserva ambiental, bem conservada, √© natural que haja questionamento em rela√ß√£o aos impactos √† natureza", afirma Soub.
O projeto prev√™ a cria√ß√£o de extensas √°reas ambientais de conserva√ß√£o e amortecimento ecol√≥gico ao redor do empreendimento. Entre as a√ß√Ķes planejadas est√£o a requalifica√ß√£o e valoriza√ß√£o das unidades de conserva√ß√£o ambiental existentes, como a √°rea de prote√ß√£o ambiental (APA) da lagoa Encantada e do rio Almada e o Parque Estadual do Conduru. Segundo o governo do Estado, at√© 2019 essas √°reas receber√£o invers√Ķes de R$ 30 milh√Ķes - no entanto, o dinheiro est√° condicionado √† implanta√ß√£o do complexo. O projeto tamb√©m pretende respeitar o segmento do turismo. A op√ß√£o pela constru√ß√£o longe da costa tem o objetivo de minimizar impactos visuais e ambientais. "Al√©m do projeto do Porto Sul, temos de investir na cidade para abrigar as obras", afirma Soub.
A preocupa√ß√£o faz todo sentido. At√© agora, o governo estadual e o federal t√™m dado o tom do projeto, mas o munic√≠pio alega n√£o ter recebido detalhes suficientes para preparar um plano diretor. Ilh√©us conta com cerca de 220 mil habitantes e h√° vinte anos sofre com as perdas econ√īmicas da lavoura do cacau. A quebra desse pilar econ√īmico culminou na queda da receita dos produtores e foi um golpe duro nas contas municipais. O cacau ainda √© importante segmento na regi√£o e emprega cerca de 90 mil pessoas em sua cadeia produtiva, mas n√£o tem for√ßa suficiente para fazer crescer o or√ßamento do munic√≠pio.
Com a falta de verbas, a infraestrutura urbana de Ilh√©us est√° deficiente - demandando obras para atender a popula√ß√£o atual e apresentando problemas em √°reas como saneamento b√°sico e mobilidade urbana. "O escoamento do material necess√°rio paras as obras na cidade ser√° fatal para o tr√Ęnsito local, as vias n√£o est√£o preparadas para o tr√°fego intenso de caminh√Ķes", diz Soub.
Com 73% de sua população vivendo na zona urbana, o município coleta 46% do esgoto que produz. Do total recolhido, trata menos da metade. O abastecimento de água chega a 80% das casas. "Se a população aumentar rapidamente, a situação do saneamento ficará mais caótica, com riscos de poluição da costa, dos rios, dos mangues e dos lençóis freáticos", argumenta Soub.
Outro problema existe na ocupa√ß√£o territorial. O d√©ficit habitacional de Ilh√©us est√° na casa de 25%. Ser√° dif√≠cil evitar a invas√£o de √°reas. A prefeitura ter√° de montar um plano para fiscalizar e impedir o crescimento desordenado. O objetivo √© fugir da cria√ß√£o de bols√Ķes populacionais que podem no futuro se traduzir em √°reas de pobreza. Al√©m disso, a tend√™ncia √© a conurba√ß√£o com Itabuna e outros munic√≠pios vizinhos, como Uru√ßuca e Itacar√©, criando de fato uma grande regi√£o metropolitana. "N√£o sabemos ao certo qual ser√° a oferta de emprego ap√≥s as obras. Durante a constru√ß√£o, Ilh√©us deve atrair muita gente. Temos de entender como ficar√° depois. √Č hora de pensar nas contrapartidas para a cidade."
Ilh√©us apresenta d√©ficit de recursos para formar m√£o de obra qualificada para as obras e opera√ß√£o do porto. A cadeia produtiva da ZPE tamb√©m exigir√° melhor forma√ß√£o. Na cidade, a taxa de analfabetismo √© de 20,6%. "Nosso receio √© de que Ilh√©us infle por conta das oportunidades de empregos e nossos moradores n√£o consigam se colocar no mercado de trabalho. Neste cen√°rio, a situa√ß√£o da pobreza pode piorar", exp√Ķe Soub.
O sucesso do complexo e o desenvolvimento da regi√£o n√£o podem depender s√≥ da opera√ß√£o do porto. Instrumento do governo para promover o crescimento econ√īmico, a ZPE deve atrair ind√ļstrias com benef√≠cios fiscais e infraestrutura prop√≠cia ao desenvolvimento de cadeias produtivas. Em contrapartida, os ilheuenses devem ganhar empregos qualificados. Edmundo Ramos, coordenador da ZPE Bahia, afirma que o potencial representado pelo Porto Sul √© enorme. Atualmente 37,3% do PIB de Ilh√©us vem da ind√ļstria, portanto h√° horizonte para crescimento. "Acredito no desenvolvimento de segmentos como ind√ļstria aliment√≠cia e moveleira", afirma Ramos.
De acordo com as proje√ß√Ķes do coordenador, a atra√ß√£o de ind√ļstrias para a regi√£o de Ilh√©us tem o potencial de, em 15 anos, criar 20 mil postos de trabalho. "O complexo ainda pode atrair segmentos como siderurgia e ind√ļstria automotiva." A integra√ß√£o do litoral sul com o oeste baiano vai criar um corredor de desenvolvimento por conta da ferrovia. Obras nas estradas da regi√£o tamb√©m prometem melhorar o escoamento. "Hoje n√£o beneficiamos nossos produtos. Somos deficientes at√© na produ√ß√£o de chocolate. √Č preciso mudar esse cen√°rio", avalia Ramos.
Um bom exemplo que traz alento para os ilheuenses é o polo de informática, que une empresas montadoras de microcomputadores. De acordo com Soub, o polo, formado por 52 empresas, já chegou a montar 23% dos computadores do país, mas hoje fornece 18% deles. "Falta logística. Nosso aeroporto não é capaz de atender à demanda do polo."
A defici√™ncia na infraestrutura est√° fazendo com que empresas do segmento deixem o Estado, de acordo com informa√ß√Ķes do Sindicato das Ind√ļstrias de Eletroeletr√īnicos de Ilh√©us. A queixa √© que est√° dif√≠cil ser competitivo sem atrair empresas de suporte, como fabricantes de placas, pl√°stico, papel√£o e de desenvolvimento de software. Ilh√©us est√° aprendendo que manter empresas √© mais dif√≠cil que atra√≠-las. "Uma nova estrutura industrial ser√° fundamental para melhorar a articula√ß√£o das cadeias produtivas. √Č preciso colocar a regi√£o de Ilh√©us na log√≠stica nacional e isso ser√° poss√≠vel com o Porto Sul", afirma Ramos.
A construção de um aeroporto internacional é bem-vinda. Atualmente, a cidade não opera voos noturnos, o que está atrapalhando os negócios do turismo. Além disso, o aeroporto Jorge Amado não dará vazão à demanda industrial. "O projeto do aeroporto é antigo. Ilhéus demanda essa infraestrutura há mais de dez anos", reclama Soub.

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